As lições das chamas do Museu Nacional

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mnacional                  Todos nós assistimos estarrecidos o lamentável e vergonhoso incêndio ocorrido no início do mês de setembro no Museu Nacional do Rio de Janeiro, um dos maiores museus de história natural e de antropologia das Américas. 

                Por ter sido fundado em 1818, a imprensa noticiou que “o fogo queimou 200 anos de história”. Não é bem assim, a tragédia foi maior. Milhares de anos de história foram queimados, eis que o acervo de 20 milhões de itens continha artefatos egípcios, gregos, romanos e coleções de geologia, paleontologia, botânica, zoologia, antropologia biológica, arqueologia, etnologia, que retratavam e possibilitavam o estudo de fatos milenares. Luzia, por exemplo, o fóssil humano mais antigo encontrado na América, destruído pelo fogo, tinha aproximadamente 12.500 a 13.000 anos.

                Quase tudo foi destruído, e sem condições de recuperação. O Brasil perdeu um inestimável acervo histórico, e como noticiou a Revista Veja, na edição de 12 de setembro, “ninguém pediu desculpas, ninguém se demitiu, ninguém foi demitido. E provavelmente nem será: o Brasil é o país das tragédias sem culpados e sem punição, uma realidade que torna ainda mais pungente a visão dos escombros destelhados. [...] Erra-se, erra-se, e não se aprende”.

                Mais grave que o incêndio ocasional é a revelação do descaso com a cultura e com a história, indicando que esta foi uma tragédia anunciada e outras poderão ocorrer no Rio de Janeiro e em outros lugares. Diretores de 22 institutos já enviaram Carta ao Ministro da Ciência, tecnologia, Inovação e Comunicações alertando para o perigo desta tragédia se repetir em seus laboratórios. Nos últimos anos, o Museu da Língua Portuguesa e o Memorial da América Latina em São Paulo também pegaram fogo. Em 1978 foi a vez do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, cujo incêndio destruiu obras raras de Picasso, Matisse e Miró.

                Conforme reportagem na Rede Globo, “quem acompanhou a degradação do Museu Nacional do Rio de Janeiro, ano após ano, lamenta pela tragédia que poderia ter sido evitada”. O imponente prédio, que abrigou a família real portuguesa, a família imperial brasileira e sediou a primeira Assembleia Constituinte Republicana, era tombado pelo IPHAN, mas foi vítima do abandono e do desprezo pela cultura. Em 1995 foram interditadas metade das salas por causa de infiltrações e cupins. As fiações eram precárias e perigosas, “não tinha certificação do Corpo de Bombeiros” e “penava fazia tempo – mais de um século, na verdade, – com a falta de dinheiro”.

                É lamentável que não houvesse dinheiro para a manutenção do prédio histórico que abrigava a mais antiga instituição científica do Brasil, mas sobraram recursos para investir na construção de 12 estádios para a Copa do Mundo de 2014 e na infraestrutura e realização das Olímpiadas. Segundo a imprensa, o Museu Nacional do Rio de Janeiro necessitava de aproximadamente R$ 22 milhões de reais para sua reforma/manutenção. Na Copa do Mundo e nas Olímpiadas foram gastos R$ 63,7 bilhões. Só a corrupção na Copa do Mundo rendeu aos beneficiários R$ 120,9 milhões, com a quase totalidade das obras superfaturadas.

                A tragédia do Museu Nacional do Rio de Janeiro serve como uma lição. Não se pode negligenciar nas ações de proteção e preservação do patrimônio histórico. Precisamos valorizar nossa cultura, promover a restauração e urbanização dos conjuntos arquitetônicos e urbanísticos, além de gerenciar nossas instituições para que cumpram efetivamente com as suas finalidades de produção e disseminação do conhecimento.

                Em Parnaíba, há três anos tivemos um incêndio num depósito da Secretaria Municipal de Educação, numa das dependências da antiga Estrada de Ferro Central do Piauí, cujo prédio também faz parte do patrimônio histórico da cidade. Atualmente, precisamos unir forças e voltar as nossas atenções para reestruturar e revigorar o IHGGP – Instituto Histórico Geográfico e Genealógico de Parnaíba, que está instalado em edifício colonial, centenário, tombado e que merece ser preservado com todas as suas características originais e mantida a sua destinação apenas para a sede do Instituto.

                O IHGGP é instituição importantíssima que, apesar das dificuldades, continua prestando serviços relevantes a estudantes, professores e pesquisadores, porém tem sofrido com a falta de recursos, dívidas trabalhistas, invasões e até furtos que comprometeram o seu acervo. É preciso urgentemente unir esforços para fazê-lo renascer das cinzas, porque esturros já existem, mas, ainda há tempo de, num trabalho conjunto entre Poder Público, sociedade organizada, membros do IHGGP e sua atual diretoria, serem adotadas providências, enquanto não incendeia e a perda ainda não é total.