180 anos de memória viva
Simplício Dias da Silva
(*1773+1829)Parte II

17 de Setembro de 1829. O dia amanheceu sombrio. Os sineiros da torre da Matriz de Nossa Senhora da Graça faziam ecoar toques tristes, e o repicar dos instrumentos não deixava dúvidas: Parnaíba perdia o seu maior governador – Simplício Dias da Silva. Sua banda de escravos educados, desde o raiar do sol, já estava a postos, a executar marchas de despedida. A partir de então, a Vila de São João, outrora opulenta e sempre o melhor povoado da Província do Piauí, preparava-se para entrar em grande decadência. Com Simplício Dias, foram-se também as grandes oficinas de couros e as charqueadas que levaram fama além-mar.
Criado com as graças da colossal fortuna herdada de seu pai, Simplício Dias sempre se destacou pelo seu espírito ativo, empreendedor e progressista. Ainda moço, vai estudar em São Luís, Maranhão, onde comandou grande exército na Expedição do Axuí, episódio que o escritor Júlio Chiavenato transformou em romance fantástico.
Aproveitando seus navios que navegavam para o Reino, Simplício Dias passa-se para Coimbra, onde estudou Leis. Visita alguns países da Europa, foi hóspede da França revolucionária. Conheceu o respeito à liberdade, as palavras tirania, igualdade, cidadão, absolutismo, constituição, pátria, república, a filosofia do Século das Luzes do pensador Voltaire. Benemérito das grandes causas, Simplício Dias recebeu de Dona Maria I, Rainha de Portugal, o Hábito da Ordem de Cristo e o Foro de Cavaleiro Fidalgo, em atenção às suas avultadas despesas com a Real Coroa, como informou o fraterno amigo Dom Rodrigo de Sousa Coutinho, presidente do Conselho Ultramarino. Hoje, o Brasão do moço rico do Brasil, como lhe chamava a Rainha, é destaque na Bandeira da Parnaíba. Mary Del Priore, em seu livro História do Amor no Brasil, escreveu sobre os casamentos considerados de bom gosto no século XIX, onde “músicos eram contratados para o baile e havia senhores muito ricos, como Simplício Dias da Silva, que contava com uma banda de músicos escravos.”

Gazeta de Lisboa, jornal da Corte portuguesa, onde era rara notícia que não refletisse a política governamental. Nesta edição de 28.11.1798, foi incluída nas suas páginas, carta oficial do presidente do Conselho Ultramarino, Dom Rodrigo de Sousa Coutinho, endereçada à Simplício Dias da Silva, do Palácio de Queluz, em 27.10.1797.
De volta à sua Vila, lutou, ao lado de homens importantes, pelas grandes causas, pela Alfândega do Piauí, pelo comércio direto com Portugal sem passar pelas alfândegas do Maranhão ou Pernambuco, pelo engrandecimento da indústria, do comércio, da pecuária e agricultura da Província. Realizou o primeiro desenho do Delta do Parnaíba, em 1806, hoje na Mapoteca do Itamaraty, no Rio de Janeiro. Simplício Dias construiu fortes de madeira, chamados redutos, que defenderam o litoral do Piauí, contra piratas e invasores: na Ilha do Caju no Delta do Parnaíba, na Praia da Pedra do Sal, o de São Pedro de Alcântara próximo ao Porto das Barcas, e na Baía de Amarração na Coroa dos Tanques.
Em 1815, Simplício Dias foi o grande incentivador para a criação do Correio da Parnaíba, uma espécie de franquia do Correio do Ceará, junto com o negociante representante de firmas inglesas Domingos José Martins, um dos chefes da Revolução Pernambucana de 1817, com Frei Caneca. Domingos José Martins, em Londres, frequentou os meios democráticos, onde, nas sociedades secretas, conviveu com o general Francisco Miranda, chefe escolhido para emancipação da América espanhola, considerado o precursor da independência hispano-americana. Os navios de Simplício Dias traziam mercadorias, mas principalmente idéias progressistas do Mundo e do Brasil. O seu bergantim Senhor do Bonfim, que costeava as províncias do norte, ligava Parnaíba aos republicanos do Recife. Jornais e livros proibidos chegavam à Parnaíba, nos porões deste e de outros navios.
Com o doutor João Cândido de Deus e Silva, José Francisco de Miranda Osório, Leonardo de Carvalho Castelo Branco, coronel João José de Sales, Manoel Antônio da Silva Henriques, major Bernardo Antônio Saraiva, padre Domingos de Freitas e Silva, e outros, Simplício Dias instalou a primeira loja maçônica do Piauí, a Independência, em prol da liberdade do Brasil, ligada a Linha Vermelha de Gonçalves Ledo, que também lutava pelo regime republicano e o fim da escravidão. Como bom maçom, usou a sua imensa fortuna em prol das ações nobres. A preocupação de Simplício Dias não era apenas em gerir seus imensos currais, sítios, fazendas, comércio, indústrias de barcos, couro e charque. Fez das virtudes, sua causa principal.
Dele, falam dois irmãos que passaram pela vila de São João, a propagar idéias liberais: Henry Koster, em 1811, e Louis-François de Tollenare, em 1818.
Koster, em seu livro Viagem ao Norte do Brasil de 1805 a 1815, escreveu: “Fui introduzido nas casas dos primeiros negociantes e plantadores. O coronel Simplício Dias Governador da Parnahiba, onde possue magnífico solar, é rico e tem caráter independente [grifo nosso]. Conta entre os seus escravos, uma banda de músicos, os quaes fizeram aprendizado em Lisboa e no Rio de Janeiro. À homens como o coronel, pode-se attribuir o progresso do paiz.”
Tollenare, em Notas Dominicaes deixou a seguinte impressão: “A cerca de 150 ou 180 leguas a leste de São Luiz e sobre o continente, ha a pequena cidade da Parnahiba, perto da qual se cultiva o melhor algodão do paiz, muito superior a todas qualidades do Maranhão. Parnahiba recebe os produtos da interessante capitania do Piauhy, de que Oeiras é a capital. É em Parnahiba que se acha a excellente propriedade do Sr. Simplício Dias da Silva, um dos mais opulentos particulares do Brasil. Calcula-se em 1800 o número dos seus escravos; organizou com elles um regimento e às vezes causou inquietações ao governo que tentou perseguil-o. Parece que estas inquietações são infundadas. O Sr. Simplício viajou na França e na Inglaterra, e ali aprendeu a conhecer o respeito devido à civilização; ocupa-se das bellas-artes, vive com um luxo asiático, mantém músicos com grande dispêndio, acolhe os estrangeiros, gosta dos franceses, vive nos seus domínios como um homem poderosamente rico; mas não conspira. Influiria, sem dúvida, muito em favor do partido ao qual se ligasse, se o seu partido recorresse à revolução.”
Como anteviu o francês Tollenare, Simplício Dias modificaria, com o seu empenho e lutas, o destino para o norte do Brasil, a que Portugal aspiraria, conservando-o como sua colônia. Acompanhando Dom Pedro e a maçonaria brasileira, o Apostolado da Nobre Ordem dos Cavaleiros da Santa Cruz de José Bonifácio, fez Parnaíba honrosamente receber do Imperador, o título de Metrópole das Províncias do Norte, por ter sido a primeira vila do norte, a proclamar a Independência do Brasil, no dia 19 de Outubro, no 7º mês do ano maçônico de 5822. Como reconhecimento pelos feitos, Dom Pedro condecorou Simplício Dias da Silva, através de Carta Imperial, na Ordem do Cruzeiro, e o nomeou como primeiro presidente da Província do Piauí, no Brasil independente. Como Gonçalves Ledo, republicano, declinou do cargo, não quis servir ao regime monárquico.
Simplício Dias da Silva casou-se com Dona Maria Izabel Thomázia de Seixas e Silva, com quem teve quatro filhos: Antônio Raymundo Dias de Seixas e Silva, Simplício Dias de Seixas e Silva, Helena Amália Dias de Seixas e Silva, e Carolina Thomázia Dias de Seixas e Silva.

Dona Maria Izabel Thomázia de Seixas e Silva. Oléo sobre tela pertencente à Maria Helena Aquino de Seixas. Barra do Longá, Buriti dos Lopes-Piauí.


Armas Municipais da Parnaíba, onde figura o Brasão de Simplício Dias da Silva.









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