Portal Costa Norte - Notícias de Parnaíba: 180 anos de memória viva 180 anos de memória viva ================================================================================ Direrot Mavignier on 07/09/2009 10:56:17 Simplício Dias da Silva (*1773+1829) Parte I A linha do tempo já tinha cruzado a metade do século XVIII. A noite se despedia e o sol começava a dourar as primeiras cores do dia da pequena vila. Assustados, os olhos dos portobarquenses se dirigiam para o Porto Salgado, a admirar aquele enorme navio, ancorado durante a noite, quando as estrelas ainda cintilavam. Nele chegava um dos maiores benfeitores de São João da Parnaíba do Porto das Barcas, na Capitania do Piauhy: Domingos Dias da Silva. Português nascido na Aldeia de Pardonellos, Concelho de Montalegre, Distrito de Vila Real, Região Norte e Sub-Região do Alto Trás-os-Montes, filho de João Dias da Silva, Vereador e Juiz Ordinário no lugar, e sua mulher Dona Maria Gonçalves. Em Portugal, gozava prestígio, tendo ocupado importante função na Índia, onde participou de guerras. Domingos veio para o Brasil instalando-se no Rio Grande do Sul, aonde adquiriu fortuna. Transferiu-se para o litoral do Piauí, atraído pela família Silva Henriques, trazendo fortuna em ouro, moedas, obras de arte, cravando um marco decisivo na caminhada histórica da Vila de São João da Parnaíba. Com seu ouro, esse português iria fazer brilhar a história parnaibana. A natureza rebelde do Ceará com a Grande Seca fez eliminar seus concorrentes da produção de artigos vindos do gado bovino. Na década de 90 do século XVIII, ela matou os rebanhos restantes de gado, sacrificando as charqueadas cearenses instaladas nos estuários dos rios Jaguaribe, Acaraú, Coreaú e na Vila de Santa Cruz do Aracati, que já vinham sofrendo com as estiagens de 1777-1778, a Seca dos Três Setes. No apogeu dessa indústria, os Dias da Silva transformavam em couro e charque mais de 40 mil bois por ano, que alimentavam o Brasil-Colônia e Portugal. Com cinco navios de sua propriedade, transportavam suas mercadorias pelos mares distantes. Dois grandes navios, entre eles o Nossa Senhora da Conceição Santo Antônio e Almas, levavam seus produtos para Lisboa e Porto, trazendo na volta produtos e novidades da Europa. Nossa Senhora da Conceição é padroeira de Portugal, e Santo Antônio, padroeiro de Lisboa. Em apenas um navio, os Dias da Silva levavam para Portugal, o equivalente a 15 mil bois transformados em couro em cabelos, e tantos outros em couros curtidos com a casca do angico preto, fazedor da melhor sola do país. Com negociantes privilegiados pela posição geográfica de Parnaíba, como João Paulo Diniz, Sebastião da Silva Lopes, os Silva Henriques, os Dias da Silva, os Veras e outros, a vila litorânea progrediu e liderou por largos anos o comércio piauiense. Domingos promoveu expressivas mudanças econômicas e sociais em Parnaíba. Com grande capacidade realizadora e comercial, construiu casas, igrejas e edifícios. Entre estes, a famosa Casa Grande da Parnaíba com o seu luxo asiático. No encontro de suas fachadas encontra-se o único oratório público do Estado do Piauí e um dos poucos do Brasil, construído sobre pedra de Lioz e vindo de Portugal, dedicado a Nossa Senhora da Conceição, a santa de sua devoção. A Casa Grande da Parnaíba construída por volta de 1770, com os grandes luxos da época, foi palco das reuniões sociais e políticas da Vila de São João. Chegou a hospedar governadores. Com sua imponência e riqueza, sua fama ultrapassou as fronteiras da Colônia. Nela, os Dias da Silva recebiam personalidades importantes, sempre acolhidas com muita fidalguia, elegância, baixelas e fagueiros de prata, louças personalizadas vindas da Índia. Casa Grande da Parnaíba na esquina da Rua Grande com a Rua da Glória. No apogeu da prosperidade de suas indústrias, cultivadoras de fama em toda Colônia, Domingos Dias da Silva, que já tinha constituído família na nascente Vila de São João, faleceu em 16 de Janeiro de 1793, repousando os seus restos mortais na rica Capela do Santíssimo Sacramento, na Igreja-Matriz, capela iniciada por ele em 1770 e terminada pelos filhos Simplício e Raymundo Dias da Silva, para os quais deixou sua fortuna, mas reservando um terço para obras pias, legados e confrarias religiosas. Na lápide de mármore que cobre o seu túmulo, consta ter sido ele o principal benfeitor dessa capela e por si tão somente construída, à custa de sua fazenda, como reza o Compromisso aprovado pela Rainha Dona Maria I. Para os seus 1800 escravos e pobres da Parnaíba, contribuiu para construção da igreja de Nossa Senhora do Rosário. Na sua lápide está escrito: Dominicius Dias da Silva hoc jacet in tumulo parochia Pardonellos natus parnahibense oppido mortuus decima sexta die kalendas januarias anno Domini 1793 construit hanc aedem large quoque numerat illam perpetuo et tumulo morte jagare cupit. Pode-se dizer que Parnaíba se promoveu na casa grande, na senzala e nas igrejas dos Dias da Silva. Hermínio Conde, médico e escritor natural da cidade de Piracuruca (1905-1995), diz o Piauí dever indiscutivelmente a Domingos Dias da Silva, a sua unificação econômica: “Até então os seus distritos sulinos articulavam-se exclusivamente com as capitanias limítrofes. Os agentes da indústria do xarque da Parnaíba efetivaram a ligação econômica da capitania. Antes das grandes charqueadas da Vila de São João, os bois do sertão eram vendidos em pé, principalmente para Bahia. Os agentes dos Dias da Silva, imbuídos da compra do gado, atingiram Parnaguá, no extremo Sul, a mais de mil quilômetros do litoral do Piauí. Daí, quase todos passaram a vender seus bois, para a indústria parnaibana. Razões não faltam para que Domingos Dias da Silva seja considerado - o benfeitor de Parnaíba. Capela do Santíssimo Sacramento na Igreja Catedral de Nossa Senhora da Graça, em Parnaíba, de uso exclusivo dos Dias da Silva, onde a família contava com pároco particular, e lápide que cobre o túmulo de Domingos Dias da Silva, no interior desta capela. A partir de 1793, os destinos da Vila de São João começaram a passar pelas mãos de Simplício Dias da Silva, um dos construtores do Brasil. Nascido em Parnaíba, no dia 2 de março de 1773, filho legítimo do Capitão Domingos Dias da Silva e de dona Claudina Josefa. Foi criado dentro dos padrões de riqueza que seu pai possuía. Sua fortuna apenas tinha rival em São Luís, como a do comerciante maranhense, o banqueiro José Gonçalves da Silva, dono de grandes imóveis e propriedades agrícolas, contando com 1500 escravos. Tornou-se Simplício Dias, junto com o banqueiro maranhense, um dos maiores exportadores de gêneros tropicais do Brasil para a Europa. Simplício Dias estudou nas melhores escolas de São Luís, Maranhão. Em 1793, Simplício Dias foi nomeado Alferes de Cavalaria da Ordenança da Vila de São João e no mesmo ano foi promovido a Capitão. Ainda jovem, portador de grande inteligência, demonstrando inclinação para as lutas democráticas, Simplício Dias cruzou o Atlântico, e em Portugal, foi estudar Leis, aonde os moços ricos da época estudavam - Coimbra, a universidade portuguesa que conferia também diplomas de Medicina, Matemática e Cânones. Era para lá que iam os moços brasileiros ambiciosos do diploma de uma escola superior. Viajou pela Europa, sobretudo na Itália, Inglaterra e França. Simplício Dias foi hóspede da França pós-revolucionária e ali se impregnou das idéias da Enciclopédia de Diderot e D’Alembert, de 1751. Conheceu as filosofias políticas de Voltaire, as lutas do Século das Luzes (XVIII), iluminou-se com idéias liberais. De volta à sua Parnaíba, trabalhou com ardor pela promoção do Brasil. Fez Parnaíba ganhar do Imperador Dom Pedro I, o honroso título de Metrópole das Províncias do Norte, por ter sido, a Vila de São João, a primeira do Norte do Brasil, a Proclamar a Independência, no 19 de Outubro de 1822, hoje O Dia do Piauí.