Portal Costa Norte - Notícias de Parnaíba: Alarico da Cunha e o Matuto Henrique Alarico da Cunha e o Matuto Henrique ================================================================================ Direrot on 19/06/2009 08:29:37 Ao visitar parentes numa fazenda em São José dos Matões, no Maranhão, Alarico da Cunha foi surpreendido com o pedido de uma senhora, que implorou para que levasse seu filho, para ser gente, em Parnaíba, na época a capital econômica do Piauí. O rapaz tido como esperto, aprendeu a ler e escrever por conta própria, não deveria se perder nos reles afazeres de uma fazenda. E assim, Alarico atendeu ao pedido da pobre mãe. Henrique, o esperto rapaz, embarcou para Parnaíba. Ao chegar, foi trabalhar na estiva de uma firma de transporte marítimo. Com o seu primeiro salário, realizou o seu sonho de comprar caneta e papel, com o fim de escrever para a sua mãe. Feita a carta, Henrique, argucioso e sagaz, pediu ao padrinho Alarico que a colocasse no Correio. Curioso em saber se realmente o afilhado sabia escrever, Alarico abriu o envelope e deparou com um depoimento precioso sobre a Parnaíba das primeiras décadas do século passado. Esta carta está transcrita no Almanaque da Parnaíba. As observações do matuto Henrique em carta para sua mãe De Parnaíba- PI, para São José dos Matões - MA Mamãi, bote-me a Benção. Mando li dizer qui xeguei aqui na Parnahyba no Sabo arretrazada. Nun conto nada di Tirizina pruquê fui xegando lá i inbarcando biatamente nun vapou qui era um Munarca de grande i só gastemo ceis dia mode xegá aqui. Mamai, Parnahyba é uma cidade Badeja, dimenhanzinha si alvoroça tanta gente na beira do rio qui nem formiga arredó di lagartixa morta, quaje tudo trabaiadô caçando ganho. U mercado é ôtro dizispero. Si arriune mais povo di que na Dezubriga quando o pade diz miça na capela dus morros da dona Xiquinha i tudu si vende. Fiquei besta de espiá gente comprando maxixe, quiabo, limão azedo, foia de João-gome i inté taiada de girimun. Mamãi, me arranxei na caza du tenente Candio da Sanção qui xamam repubrica i gostei dimais pruquê sou bem tratado, grassas a Deus. Pratão de arroz cum fejão i carne gorda cum pirão nunca mi fautou, banana prata pra subrimeza i inté café bebo toudo dia dimanhan mei dia i di noite cum pães di cidade i mantega do reino. Mamãi, aqui as coiza é muito deferente e adverça dahi. Toudo mundo anda pronto de butina cularim gruvata i palitou; i quem nun anda pronto é cangacero. As cazas são quaje tudo apregada uma nas ôtras cumo cazas de maribunde de pereide i quaje tudu de teia atijolada i tem um bando delas calçada i forrada di taba cum alçapão purriba cuma gaiola di xexéu, qui xamão sobrado. A caza du capitão Tirulino é um puleiro de xocá ema in comparação cãs daqui. Gente rica aqui anda bestando, quaje tudu é seu coroné ou seu doutou. A igreja faz inté sôbrosso di grande i auta. Cabe dento dela toudos us moradou da Garapa, Inchú, Barra das Lages, Monte Verde, São Filipi, Piquizero, Bom Principe, Fazenda Nova i ainda si adiquiri lugá pra mais de cem cristão botizado. Mamai, o pouvo daqui tem um cisteme muito ingrassado, num diz ou de caza não, conde xega nas caza aiêia bate pauma cumo quem istuma caxorro mode acuá tatu in buraco. Nêga prêta tribufó aqui xamam dona Cicrana, agaranto que si a cumade Andreza ou a tia Cimiana morasse aqui xamavam elas de dona mesmim cumo as muié branca de famia, fiquei besta...Mamai, a luz daqui é feita num tal de gazomer, num priciza de pavy nem trucida de algudão mode acendê, é só distrocê uma tornera, cuma quem tira caxaça de incoreita i riscáum fosque que a luz biatamente acende tão quilara que faz gosto i si o cristão não acendê dispressa ispaia um xêro di cibôla pôde danado, dizem qui é mode um tal de caboreite. Aqui tem um jogo xamado bilhá, que não ai diabo qui intenda mais porem só joga nele gente di famia. É arredó duma meza grande forrada cum pano verde cumo baú de pregaria i os jogadou sigurando umas vara mode impurrá umas bola cuma ôuvo de ema. Conde tão jogando é mesmo que si vê dois mexedô de farinha in forno de barro ageitando os rôdos mode num dismaxá os beiju debaixo.Tem tambein ôtro latejo invizive nesta terra, é um tal de sinema. Aparece umas figura de gente, di animal, di vapou, di caza, tudu prefeitim cumo si tivesse vivo bulindo i é cumo sombra na frente dum pano isticado paricido cum vela di imbarcação i só nun faz é falá. Foi a coiza mais bunita i mais incantada qui eu já vi, inté parece arte do capirôto, credo in cruz. Conde as parenças corre inrriba dum pano, a musga vai tocando i o povão si afilotando di aleque, home, muié, minino i tudu, fêmeas i maxo. Paguei treis tostão mode ispiá o bixo, i quem num paga num entra na fulia. Mamãi, xeguei antonte da Titoia, fui nas barcas da cumpania Busse mode trabaiá nos vapou inguilez ganhando dois mireis pur dia i quato pur noite. Na Titoia a gente vê prefeitim o mar inté onde incosta nas pareide do céu. As barca sacode ca gente que faz inté remoço, dô de istambo i vontade de gumitá qui nem urubu novo, provia du dizaçucêgo das água du mar. O tal vapou inguilez é um pai degua de grande, é maió de que a vazante di fumo do cumpade Dumingo preto e mais auto de que o pé de tabori da porta de seu Majó. Us purão de butar carga são tão fundo que iscurece a vista do cristão que ispia. O pessoal que mora nus tal vapou são tudu branco rozalgá, ôio azu i cabelo vermeio, são mesmo destes que dão veneno. A fala deles só pru diabo, não ai quem intenda, é uma imbruiada cuma de curica in roça de mio novo, só se fala cum eles pur aceno pruque eles também não intende nossa fala nem que a gente grite e fale tudu ispivitado. São danado pur papagaio i caxaça, dão inté roupa de gazimira novinha pur um papagaio ou uma garrafa de giribita. Conde os inguilez falão um cusôtros é uma imbruiada direitinha a de tio Damião adispois que teve a moléstia do na língua. Ora, si o tio Damião tevesse lá, nem iguinorava o latejo deles i podia inté converçar cus inguilez cuma si fosse tudo paricêro. Mamai, ôtra coiza ingrassada é que us inguilez do vapou tudu se chama Piloto, mode coiza que os pade da terra deles não botizão pur outro nome? E são dereitim um piloto, pruque não tem nenhum de bigode na cara. Mode a gente comprá quarqué coiza nos vapou inguilez é pricizo traze iscundido cuma quem furta mode um taes de Guarda da Arfandega que num sai dos vapou botando sentido i si pegão a gente cum quarqué terém tomão i dizem que é contra banda, agora banda de quem é que num sei nem quero priguntá. Tudu que vem dus vapou vae para essa tal Arfandega, caxa, barrica, fardo, ferrage i tudu que é um Deus nus acuda. Istodia eu fui trabaiá nessa tal Arfandega i vi um monte de dinheiro di cobre no chão qui parecia juá quando si ajunta mode dá pra cabra, in xiqueiro. I tem tantas coiza aqui mode contá qui num ai papel que xegue, por isso vou acabá, pruque já me dói as bonecas dos dedo de tanto iscrevê.Mamai, dê lembrança a quem preguntá pru mim. Munta saudade ao cumpadre Miguel, ao tio Manuel, a Quilara, a Calista i a Birro, e sou seu fio du coração. Henrique Alarico da Cunha [1883-1965] nasceu em São José das Cajazeiras, hoje Timon, MA. Faleceu no Rio de Janeiro. Foi sociólogo, poeta, jornalista, prosador, folclorista. Morou por largos anos na cidade de Parnaíba, e muito contribuiu para os jornais e Almanaque da Parnaíba. Poliglota, falava fluentemente inglês, francês e alemão. Foi vice-cônsul de Portugal em Parnaíba. Foi maçom de elevado grau, esotérico e espiritualista. Deixou vários livros escritos como: Discursos Maçônicos, Ode a Mendiga, Cinema Falado, Microscópio, Folclore Nortista, entre outros.