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O VOO AF, DA AIR FRANCE

O voo 447, da Air France, que mergulhou o Brasil e a França num angustiante e indizível pesar, revela-nos, dentre outras coisas, uma verdade inconteste, qual seja: a transitoriedade da vida.  Entrementes, vivemos em completa desatenção a este fato e  sempre nutrimos a expectativa de alcançarmos uma idade avançada sem maiores preocupações da existência humana. Esquecemos algo da mais profunda relevância, isto é, somos seres absolutamente efêmeros. Jacob Boehme arengava: “Desde que o ser humano nasce está suficientemente velho para morrer”. Na mesma esteira, o filósofo Martin Heidegger, enfatizava que, ao afastar-se das superficialidades cotidianas, às quais aprisionam a atenção das pessoas, o homem percebe que a sua vida está direcionada à morte 1.Igualmente, a sabedoria bíblica alude à transitoriedade da vida do seguinte modo: “(...) Que é a vossa vida? Sois apenas como neblina que aparece por instante e logo se dissipa. (...)”2.   Em Notre-Dame, os passageiros do voo AF 447 “(...) foram pranteados e solenemente homenageados. A precariedade da vida foi evocada, e o arcebispo Vingt-Trois disse palavras destinadas a confortar os enlutados. (...)”3.   Considerações dessa ordem, pois, nos mostram, com uma clareza fulminante, que “Mal nascemos, deixamos de existir: Somente a vida vivida em comunhão com Deus é verdadeira vida; (...)”4.   De fato, a total precariedade da vida humana estimula-nos a submeter nossos planos e projetos à permissão divina. O cristão, serenamente avesso a qualquer idéia de fatalidade ou acaso nos acontecimentos da existência humana, repousa confiantemente na providência divina e, por isto mesmo,  não encontra nenhum óbice em condicionar sua vontade à soberana vontade de Deus, colocando todos os seus intentos sob a permissão divina, razão pela qual dirá, alegremente, em todas as circunstâncias: Se o Senhor permitir, farei isto ou aquilo, colimando, assim, alinhar-se à sua infinita sabedoria, seguindo rigorosamente as linhas fundamentais do ensino bíblico pertinente ao tema. Esta exegese – que decorre dos mais comezinhos princípios vertidos nas Sagradas Escrituras, robustece a conduta cristã dando-lhe pleno sentido à vida.Portanto, pelo aduzido chega-se à feliz conclusão que a soberania de Deus nos livra da ansiedade, e nos liberta, também, das explicações. Da ansiedade, quando descansamos cabalmente em sua infalível e eterna providência; das explicações, quando não estamos à procura de respostas para todas as perguntas da existência humana, mesmo que sejam de fundamental relevância5. A atitude cristã, verdadeiramente madura, não indaga nem questiona a ordem dos acontecimentos.  Sabe perfeitamente que tudo o que ocorre na Terra, sej a o que for, está sob a permissão divina. Nada, absolutamente nada, escapa de Seu domínio. Nem mesmo o mais fugaz pensamento. Assim, melhor é seguir o sábio conselho de Santo Agostinho: “Entregue o passado à misericórdia de Deus, o presente ao seu amor e o futuro à sua providência”. _______________________________________    

  Notas:

1.                   DE MENDONÇA, Eduardo Prado. O Mundo Precisa de Filosofia. 4ª ed. Rio de Janeiro: Agir, 1976, p. 138.

2.                   Tiago. In: Bíblia Sagrada. Tradução por João Ferreira de Almeida. 2ª ed. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil e Casa Editora Presbiteriana, 1999, p. 247. Bíblia. N. T.

3.                   PAULO NOGUEIRA. A cidade alegre ficou triste. ÉPOCA, São Paulo, n. 577, p. 64-67, jun. 2009.

4.                   Sabedoria. In: Bíblia Sagrada. Tradução por Domingos Zamagna, et al. 9ª ed. Rio de Janeiro: Vozes, 1989, p. 815, nota ao capítulo 5, versículo 13, Bíblia. N. T.

5.                   SWINDOLL, Charles. O Mistério da Vontade de Deus. São Paulo: Mundo Cristão, 2001, p. 108.   

 

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Samuel Morais