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COMPREENDER O OUTRO EM NÓS MESMOS

No relacionamento social a compreensão do outro se mostra, com frequência, um desafio insuperável para o ser humano. De fato, há uma forte resistência de nossa parte quando nos achamos na necessidade de compreender o outro. Gostamos sempre de ser compreendidos, mas não gostamos de compreender os outros. Este comportamento, sob a ótica cristã, tem suas raízes no egoísmo que cada ser humano tem em si mesmo. Não há quem não seja, de alguma forma, egoísta porque faz parte da natureza do próprio homem. Não foi à toa que Aristóteles observou: “O egoísmo não é amor por nós próprios, mas uma desvairada paixão por nós próprios”.
A compreensão do outro requer, sobretudo, compreender o nosso próprio eu diante de Deus. A propósito, A. W. Tozer sabiamente ponderou: “O fato de que o homem é nada e Deus é tudo é um princípio básico da fé e adoração cristã. Os ensinamentos do cristianismo coincidem neste ponto com os das religiões mais avançadas e filosóficas do Oriente. Com toda a sua engenhosidade, o homem não passa de um eco da Voz original, um reflexo da Luz não-criada. Como um raio de sol fenece quando separado do sol, assim também o homem separado de Deus volta ao vazio do nada de que surgiu, atendendo ao chamado da criação.” (Mais perto de Deus. 4 ed. São Paulo: Mundo Cristão,  p. 38).
De outra banda, André Comte-Sponville, refletindo sobre o significado do eu na perspectiva filosófica, chega a ressaltar que “É por isso que é preciso ‘conhecer a si mesmo’, não para se encontrar (pois não há nada a encontrar), mas para conhecer seu nada (...)” (Uma Educação Filosófica. São Paulo: Martins Fontes, p. 93). Sem dúvida, ao reconhecermos a nossa absoluta insignificância perante o Eterno somos levados, pela vereda da humildade, a olharmos os outros plenos de compreensão. Não desejaremos mais que sejam como nós, assim, desejamos. Aceitaremos, de bom grado, as pessoas como, de fato, elas são: sem querer mudá-las ou convertê-las ao nosso modo de pensar. Em verdade, quando percebemos que o nosso tão orgulhoso eu não representa absolutamente nada diante de Deus perdemos a ânsia de, quando em quando, agirmos como se fossemos a “palmatória do mundo”.
É neste sentido que, Niklas Luhmann, na angularidade sociológica, salientou: “Reconhecer e absorver as perspectivas de um outro como minhas próprias só é possível se reconheço o outro como um outro eu (...) o outro possui igualmente a liberdade de variar seu comportamento, da mesma forma que eu (...) Ele pode errar, enganar-se, enganar-me. Sua intenção pode significar minha decepção” (Sociologia do Direito I. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1983, p. 47). Queremos, pois, compreender realmente o outro? Despindo-nos de qualquer forma de egoísmo e orgulho poderemos, com efeito, compreender verdadeiramente o outro tal qual ele é. Não estamos aqui para mudar as pessoas, muito menos para tentar transformá-las a ferro e a fogo, mas para compreendê-las integralmente porquanto somente assim haveremos de abraçar as perspectivas do outro como nossas também.
 

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Samuel