Portal Costa Norte - Notícias de Parnaíba: A ESTÓRIA DA LUA E DO LADRÃO A ESTÓRIA DA LUA E DO LADRÃO ================================================================================ Samuel de Morais on 30/04/2009 23:23:00 Uma característica atraente do materialismo de nossos dias consiste numa tendência irresistível de adquirir, de forma ilimitada, bens materiais. De certo modo, há uma obsessão pela prosperidade econômica que, esta, tornou-se o selo da verdadeira grandeza das nações, da sociedade e, respectivamente, do indivíduo como tal. Em verdade, como bem assinalou Eduardo Prado de Mendonça: "Não faltam os que julgam ser a riqueza o poder por excelência. E porque os ricos são em geral poderosos, grande parte da humanidade luta por possuir maiores bens de fortuna, porque através destes bens espera vir a ter mais poderes." (O Mundo precisa de Filosofia. 4 ed. 1976. Rio de Janeiro: Agir, p. 9). Todavia, a indomesticável ânsia por bens materiais resultou numa preocupante situação à qual, conforme certa teoria, convida-nos a considerar o fato de que "(...) o consumismo seria uma espécie de doença contagiosa... provocada pela obsessão das sociedades desenvolvidas em atri buir valores elevados às posses, à aparência e à fama." (Revista Época, número 555, 9 de janeiro de 2009, p. 44). Para Cristo, a genuína riqueza residia, exclusivamente, em valorar e amealhar bens de natureza espiritual, porquanto, estes, sim, estão a salvo "(...) onde traça nem ferrugem correm, e onde ladrões não escavam nem roubam..." (Mateus 6: 20). Bem por isso salientou Rohden: "Prosperidade, para o homem espiritual, não é algo que se tenha, mas é algo que se é. Pode ele não ter prosperidade, mas sempre é próspero. O modo como o verdadeiro cristão possui e goza o pouco que possui é incomparavelmente superior e mais delicioso do que o modo como o homem profano possui e goza as suas superfluidades." (Profanos e Iniciados. 4 ed. 1990. São Paulo: Alvorada, p. 105). O essencial não é ter, mas ser. E somente os bens espirituais, por serem eternos, enriquecem verdadeiramente o homem o qual, nesta senda, pode voltar as costas ao mundo de pó na expectativa de alcançar a completa felicidade. A realidade incontornável é que o verdadeiro e profundo sentido de prosperidade quase que desapareceu de nossa cultura, escravizados que estamos ao conceito estritamente econÃ?mico do vocábulo e herdeiros de uma visão oblíqua e inadequada para a absoluta formação do ser. Agora, vejamos a estória da lua e do ladrão segundo Murillo Nunes de Azevedo: "Ryokan era um mestre Zen que levava uma vida das mais simples na sua pequenina cabana ao pé da montanha. Todos gostavam dêle: as crianças, os camponeses a quem êle ajudava em suas tarefas, recebendo em troca alimentação. Certo dia, enquanto Ryokan estava ausente, um ladrão entra na sua pobre cabana e nada encontra. Neste instante, Ryokan volta e supreende o ladrão em sua rapinante atividade. Fala com ele tranquilamente: 'Irmão, deves ter vindo de muito longe para me visitar. Não deves retornar com as mãos vazias'. Tira então o seu velho manto e o entrega ao assaltante que, assustado, foge levando- o debaixo do braço. Completamente nu, Ryokan vai calmamente até o lado de fora da cabana e, olhando a lua, exclama: 'Pobre homem! Como gostaria de lhe ter dado esta bela lua de presente!" [sic]. (O Livro do Caminho Perfeito - Tao-Té-Ching. 2 ed. 1973. Rio de Janeiro: Civilização brasileira, p. 26).