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VISAGENS

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O jogo de cartas adormece a atenção ao tempo. De susto percebe-se que a noite avança pela madrugada. Um cuidado alfineta os sentidos e a lembrança de casa finaliza a última mão do relancinho.

 

            A lua cheia reluz no caminho estreito de areia branca, madrugada alta. O passo largo avança rápido roçando o embainhado da calça nas ramagens de salsa que estreita a picada. Ruído marcado da respiração ofegante e do atrito da roupa no mato. A lua baixa alonga a sombra para trás.

 

            Erguendo a cabeça com o olhar à frente percebo alguém que caminha adiante, pouco mais de duzentos metros. Acelero o passo, imaginando se tratar de alguém conhecido. Chapéu de aba e roupa branca repercutem ao luar. No entanto, ao alcançar o cume do alto, a pessoa deixa o caminho e penetra na mata alta, à esquerda. Nenhuma suposição. Ignoro o fato motivado pela preocupação com o avançado da noite, de súbito me vem à mente que devo chegar à minha casa antes que amanheça.

 

            Pouco mais adiante, ouço o ruído de algo que se projeta no ar indo, em seguida, cair à minha frente, jogando poeira às margens do caminho. Um pedaço de galho de gameleira, de uns setenta centímetros, cortado em bico de gaita nas extremidades, num golpe só em cada uma das extremidades. Seria esperado que houvesse ouvido o barulho dos cortes e nada foi ouvido. Mas, o estranho é que não há sentido aparente para o acontecimento. Porque alguém haveria de arremessar um que pedaço de pau na minha direção?

 

            Não há muito o que pensar. É continuar seguindo e apressar ainda mais a marcha.

 

            Aos poucos começo a ouvir um choro angustiado e renitente. Vem a lembrança da esposa que está só em casa. Encontra-se grávida do primeiro filho e pode estar sentindo dores. Andar apressado, agora, já não basta. É necessário correr, pode ser que esteja precisando de ajuda. Marinheiro de primeira viagem, não consego imaginar o que possa fazer ou, antes, o que possa estar havendo.

 

            De relance passa um remorso por estar jogando baralho enquanto a mulher, gestante, ficara só em casa. Em seguida imagino que não há de ser nada, me conformo. O choro vai ficando mais alto à medida que me aproximo de casa.

 

            A roupa encharcada de suor parece limitar meus movimentos. De vez em quando é necessário parar para respirar. O percurso parece que se espicha. Ao chegar, o choro pára e o silêncio incomoda mais ainda. Salto a cerca do quintal e busco a porta da cozinha, num movimento automático. Esta porta fica sempre encostada, à minha espera. Entro em casa e com alívio percebo que a esposa dorme serenamente.

 

            Suado e cansado, sento-me e me deixo ficar por bom tempo com os braços caídos, o corpo recostado na cadeira. Recomeça o choro, mas desta vez parece distante.

 

            Pela manhã, acordo com a voz de alguém que chama por mim. Levanto-me, sinto o cheiro do café novinho. A esposa, em sua atividade diária, parece desconhecer qualquer coisa a respeito do que aconteceu à noite passada, e, como que acostumada, nem pergunta mais onde estive. Não parece aborrecida. Prepara a mesa do café no ritmo de sempre.

 

Continuam a chamar-me para além do cercado. Abro a porta e mando que se os aproximem. São trabalhadores que ficaram de acertar trabalho na roça. Na mesa de café, conto o ocorrido e ninguém dá notícia de ter ouvido qualquer coisa estranha na noite anterior, muito menos choro. Mas um dos vizinhos relata que outras pessoas por ali já se referiram a algo parecido. Diz que se trata de recém nascido, falecido e enterrado na porteira do curral, sem o devido batismo. Alguém tem que desenterrá-lo e batizá-lo para que o caso pare de acontecer.

  

 
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Laerte Magalhães
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