Portal Costa Norte - Notícias de Parnaíba: Ensino jurídico nas universidades. Ensino jurídico nas universidades. ================================================================================ Roberto Cajubá on 26/09/2009 18:52:12 Durante o regime militar em nosso país, os estudantes de Direito foram tolhidos na sua liberdade de pensar, bem como nas suas atitudes. A formação a eles repassada pelos professores era apenas limitada ao aspecto legal, proibido que era o estímulo às discussões de ordem moral, política e social. Tal fato prejudicou sobremaneira diversas gerações e repercute ainda hoje nas universidades, onde denota-se, talvez por herança daquela época, uma preocupação excessiva dos professores em transmitir o Direito como se este fosse apenas um conjunto de leis a regular a conduta de nossa sociedade. Na constante preocupação em "correr" com a matéria e repassar aos alunos apenas o que determina a lei, os professores também contribuem, de alguma forma, para a manutenção da velha estrutura, arcaica, que traduz a aplicação do Direito apenas na obediência às regras impostas, sem a análise do que possa ser justo e injusto. E assim acontece: Cronograma cumprido, Matéria decorada e profissional burocrático formado! Eis aí uma das causas do alto índice de reprovação do exame de OAB, em cada estado da Federação. Amilton Bueno, Desembargador no Rio Grande do Sul, no Livro "Direito Alternativo em Movimento" retrata bem essa situação e diz que "a nossa competência é abalada pela terrível (de) formação acadêmica que temos. Nas faculdades de Direito aprendemos a ser repetidores de fórmulas antigas (quase que 'despachantes judiciais - verdadeiro Jurista Orgânico...). Trabalhamos com categorias fora do real (o descompasso entre o que se ensina sobre a finalidade dos presídios e o que realmente são os cárceres é exemplo palmar)." Por isso mesmo é que nos dias de hoje não há mais campo para este tradicionalismo, onde o professor posiciona-se numa espécie de palanque situado num nível acima de onde está o aluno, a comentar artigos e defender a sua aplicação. Há uma necessidade premente dos cursos de Direito se modernizarem, a exemplo do que está ocorrendo em outras áreas de aprendizagem. Aquela velha escola tradicional, do professor falando para uma platéia obrigada a fazer silencio, "prestar atenção" e aceitar como regras aqueles ensinamentos, é uma espécie em extinção. Depois de 20 anos da promulgação da Constituição-cidadã já é chegada a hora de mostrar aos estudantes a nossa realidade social, política e econômica, despertando a consciência crítica deles através de debates, audiências, júris simulados e de exemplos práticos, mostrando a dura realidade do funcionamento da máquina judiciária, bem como despertando-os para atuarem sempre em busca da Justiça. Deve-se atentar que os ensinamentos estão no dia a dia de nossa realidade: nas ruas, nas universidades, nas igrejas, nos hospitais, nas músicas, nas penitenciárias... e não só no texto da lei, que muitas vezes o chamamos de 'letra morta", de tão distante que ele se encontra da realidade. É Preciso legar ao aluno uma visão ampla da realidade e mostrar, muitas vezes, o distanciamento existente entre ela e a lei. Afinal de contas, esse estudante está se preparando para ser um líder, possivelmente um futuro juiz, advogado, promotor, delegado, etc... e, como tal, deve crescer na profissão compromissado com a Justiça e consciente de seu papel de agente transformador da sociedade. Incumbe a ele ter visão crítica para interpretar a norma jurídica como expressão do Direito, e os fatos vistos politicamente, dentro de uma visão sócio-econômica, para, na amplitude desse contexto, ter um futuro profissional promissor, numa sociedade mais justa e igualitária.