Millôr Fernandes

image Millôr e todo o seu jeito de ser carioca.

Um afetuoso perfil de Millôr Fernandes, esse genial filósofo, artista gráfico, pintor, desenhista, poeta, muralista, dramaturgo, tradutor, jornalista, crítico, contista, amante... e carioca.

           Foi na noite de abertura da Primeira Feira de Livros do Rio de Janeiro, em 1960. Ele estava autografando seus livros, como também estavam Clarice Lispector, Fernando Sabino, Oto Lara Rezende... Eu tinha pouco dinheiro e só podia comprar um livro. Comprei o de Graham Greene (O Expresso Oriente). Mesmo assim me atrevi a pedir que os outros escritores autografassem meu livro, mesmo que fosse de autoria de outro escritor. Cheguei à barraca do Millôr, estendi o Greene e pedi o autógrafo. Millôr estranhou, disse que o livro não era dele mas mesmo assim desenhou um boneco e assinou. No fim da noite, eu estava com a página de rosto do Greene cheia de assinaturas de escritores brasileiros que eu vira pela primeira vez e, de gruja, o boneco do Millôr que, por muitos anos, ficou para mim quase como um talismã.

Passaram-se anos até que eu o conhecesse de verdade, levado pelo meu amigo e empresário da área de show Wellington Lima, numa tarde de 1979, em seu escritório de uma esquina de Ipanema que dá para a Praça General Osório. E apoderou-se de mim a mesma sensação que tive quando conheci Paris: desde que saltei do avião, tudo tinha para mim o sabor de uma relação antiga, feita de imagens que me haviam vindo pelo cinema, pela literatura, pela música, pela fotografia, pela pintura... Pois o mesmo aconteceu quando conheci o Millôr. Foi vê-lo, apertar-lhe a mão e era como se eu o conhecesse há muito, muito tempo. É que realmente eu o conhecia por tudo do que ele já havia exposto a mim. Era ele à minha frente como um velho conhecido que saltava do Vão Gogo, do Pif-Paf, do Pasquim, dos jornais, revistas, desenhos, pinturas, retratos, frases, textos curtos, textos longos, haikais, peças de teatro, traduções e, sobretudo, das incontáveis formas com que havia desenhado o próprio nome: Millôr.

E o melhor: eu não estava ali como um pedinte de autógrafo. Eu o conhecia agora em pé de igualdade: eu ia dirigir o próximo show do MPB-4, Bons Tempos, hein?!, um musical com texto de Millôr Fernandes. E eu estava no seu atelier de trabalho. Livros, livros, livros. Na mesinha de centro, uma garrafa de uísque, balde de gelo e dois copos. Ele não bebeu. Eu bebi. E não tirava os olhos dele. Nem da sala inteira. Millôr, entre uma e outra frase de superinteligência, explicou o que pretendia com o texto do espetáculo e o que esperava da direção, certo já de que seria um sucesso.

            A partir daí, foram dois meses de ensaio, aqui e ali com a visita do autor. Ele chegava, sentava-se na platéia e assistia a tudo em silêncio. Terminado o ensaio, Millôr juntava os cantores e eu e dizia tudo o que tinha achado. Alguma frase que saíra truncada, alguma palavra comida pelo ator-cantor, nada escapava. Sugeria como deveria ser dito isso ou aquilo. E sempre a valorizar o trabalho. O espetáculo foi um dos maiores sucessos do MPB-4. E meu. Depois voltei a estar com ele apenas uma vez. Era a estréia de um outro espetáculo no Teatro da Galeria. Me cumprimentou reclamando que nunca mais me vira e me apresentou Cora Ronai, a quem acompanhava e com quem é casado.

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Saite do Millôr : www.millor.com.br

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Em breve: Fernando Pinto, Grande Otelo, Charles de Foucauld, Cleide Yaconis ...

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benjamim santos
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