Adeus a Lozinha
De repente, sábado à noite, fui tomado por cruel surpresa.
- Dona Lozinha morreu.
Eu não estava preparado, ninguém me falou que sua situação fosse assim tão grave. Ela ainda precisava ter uma conversa comigo e eu apenas esperava seu retorno e sua recuperação. Ficou faltando essa conversa, mesmo que fosse a conversa final, sem que eu soubesse que seria final.
A notícia me invadiu a 21 de março. Noite mágica do equinócio de outono, um outono que chegava à Parnaíba carregado de chuvas. Chuvaradas e chuvisquinhos alongando-se como intermináveis. E foi só na manhã do domingo, manhã nublada, sem chuva, que desci ao lugar onde se velava a morte de Lozinha. À calçada, espalhados pelo asfalto, homens e mais homens conversavam; mulheres à porta de entrada e a sala cheia, sem que eu pudesse entrar. Depois da encomendação religiosa, as pessoas começaram a sair e só então entrei. Ao fundo, o esquife. Era Lozinha ali dentro, carregando sua morte antecipada.
Começaram os movimentos do traslado. Homens carregavam as muitas coroas de flores naturais, brancas, como o vazio que Lozinha deixava sobre a cidade. Havia emoção em todos ali dentro. De passagem por mim, uma de suas filhas me abraçou e quase me fez me dissolver em lágrimas.
- Benjamim, mamãe gostava muito de você. Ela só falava bem de você. Gostava muito de você.
Lá fora, formou-se o cortejo. Pequeno grupo de músicos da banda da cidade, todos meus conhecidos, tocava o Hino do Piauí em andamento ralentado, dorido. Aquela gente caminhando em direção ao cemitério, um esquife à frente, músicos tocando seus instrumentos de sopro, tudo me lembrava os enterros da era do jazz em New Orleans. Minhas lágrimas faziam minha despedida de Lozinha em forma de blues e spirituals e meu coração lhe prestava continência.
Pela avenida, seguiam poetas, jornalistas, professores, advogados, o prefeito, historiadores, cronistas, escritores, artistas, gente pobre, gente que eu não conhecia... todos solenes, levando para sempre um pedaço do Piauí que se partira.
Quem sabe, Lozinha esperou chegar o outono para elevar-se acima das nuvens chuvosas. Ou foi o outono que se apressou por carregá-la para que ela não se fosse em manhã ardente de sol, mas em manhãzinha nublada, quando os Anjos são mais visíveis.
Lá por cima, para recebê-la, de braços dados, certamente a esperavam o Bezerrinha, o Bembém, doutor Raul, doutor Odival, o Carlos Guido, a Elita, a Spes, o Guido e a Sônia Vaz...
O cortejo se foi. Não quis seguir. Depois que se foi, desarvoradas, desabaram as chuvas por dois dias sobre a Parnaíba. Uma Parnaíba sem Lozinha.









del.icio.us
Digg

Comentários ( 0 postado ):
Poste seu comentário