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Minha iniciação em Teatro Profissional

Quando comecei a fazer teatro profissional no Recife, em 1965, terminada a temporada do nosso espetáculo Cantochão, era preciso pensar o que iríamos fazer em seguida. O nosso Grupo Construção não podia parar logo depois do primeiro espetáculo. Decidimos então fazer outro espetáculo escrito por mim, seguindo a mesma linha de texto e canto, tal como Cantochão. Seria sobre a expulsão dos holandeses e centrado na figura do Calabar. Não me interessei pelo tema, que ia me exigir estudo, e me neguei a escrever. Poucos dias depois, saí do grupo. Nessa época eu trabalhava no Movimento de Educação de Base (MEB), um órgão da Conferência Nacional dos Bispos dirigido à educação de adultos camponeses. Eu sabia, porém, que tinha de continuar a fazer teatro, seguir carreira no teatro. Mas estava sozinho. Não tinha grupo. Minhas únicas referências em teatro eram os atores do Grupo Construção e eu os havia perdido. Sozinho, pus-me a estudar o Método Stanislawski, mesmo sabendo que jamais ia fazer um teatro à moda de Stanislawski. E comecei a ler sobre o teatro épico de Bertold Brecht. Escrevi então uma peça chamada A Besta Confusa, que nunca mostrei a ninguém e, por conseqüência, nunca foi montada. Um dramaturgo não faz teatro sozinho. Nem um encenador. Tanto um como outro precisam de atores. De repente, tudo mudou, a partir de um convite inesperado, que me jogou de novo no centro do Teatro, desta vez, de modo definitivo.            Naquele tempo, começo de 1966, o encenador e professor de teatro Hermilo Borba Filho e a atriz Leda Alves andavam armando um golpe de mestre no Recife. Era um golpe que só conheci quando Leda Alves se aproximou de mim e me falou com o tom firme e franco que lhe é próprio.

              - O Teatro Popular do Nordeste vai voltar, agora com teatro próprio. Eu, Hermilo e o ator Germano Haiut alugamos um sobrado na Avenida Conde da Boa Vista. Falei com Hermilo sobre o seu trabalho de Cantochão e sabemos que você se desligou do Grupo Construção. Ele recorda de O Crime na Catedral, aquele espetáculo bonito que você fez em Olinda. Por tudo isso, e pela pessoa que eu sei que você é, queremos convidar você para participar do TPN. O grupo é semi-profissional. Você será assistente de direção de Hermilo no primeiro espetáculo, O Inspetor, de Gogol. Hermilo está criando uma estética própria de espetáculo nordestino: uma fusão da maneira de representação do bumba-meu-boi com a teoria anti-ilusionista de Bertold Brecht. E então... você aceita?           

            Quanto mais Leda falava mais eu me sentia surpreso e entregue ao convite. Hermilo era o diretor de teatro mais importante do Recife e amigo de Ariano Suassuna. Ele e Ariano eram as pessoas mais importantes do teatro nordestino, com ampla aceitação no Rio e em São Paulo. Eu, que me considerava um ninguém em teatro, embora já conhecido de toda a classe teatral de Pernambuco e da Paraíba, por causa de Cantochão, de repente estava “convidado” para participar do mais importante grupo de teatro nordestino e sob a direção do melhor diretor de teatro do Nordeste. Nem pisquei os olhos: aceitei.  

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Benjamim Santos
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