Portal Costa Norte - Notícias de Parnaíba: Meu começo no Teatro Meu começo no Teatro ================================================================================ Benjamim Santos on 19/04/2009 20:11:42 Cheguei ao Recife em fevereiro de 1958. Passei pelo menos dois meses até que, por fim, fui ao teatro, levado por Roberto Ramalho, que também já havia me levado a um puteiro, na Rua Duque de Caxias. A beleza noturna do casario de Santo Antônio, onde ficava o cabaré, fascinou-me tanto quanto o Santa Isabel, o primeiro teatro propriamente dito que eu conhecia, pois na Parnaíba não havia teatro (nem hoje ainda) e os espetáculos eram apresentados nos auditórios dos colégios ou no cine-teatro Eden.Era uma noite de abril, talvez maio, quando Roberto Ramalho e eu deixamos a Chácara das Rosas, a pensão da rua Riachuelo, onde dividíamos um quarto. Roberto, alagoano, havia terminado o curso de engenharia há pouco tempo e era professor universitário de matemática. Varava noites resolvendo problemas e, antes de adormecer, passava algum tempo na cama lendo literatura. Sua pequena biblioteca era variada e tanto tinha a obra completa de Graciliano Ramos como Um Americano Tranqüilo, de Graham Greene, e o Canto General, de Pablo Neruda, em espanhol.Louro, olhos miúdos, cortês, Roberto era um cavalheiro, daqueles que se imagina em romances de Lawrence ou Flaubert. O motivo daquela saída à noite, natural para Roberto, era, para mim, carregada de expectativa e ansiedade: íamos ao Teatro Santa Isabel ver Medéia, montagem do Teatro Universitário de Pernambuco. Pela primeira vez eu ia assistir a um espetáculo em Recife; pela primeira vez ia entrar no Santa Isabel, um lugar sagrado, onde Eugênia Câmara havia se apresentado, tendo Castro Alves na platéia. Todo o teatro a que eu havia assistido até então eram os espetáculos de circo (O Conde de Monte Cristo, O Louco da Aldeia); os dramas religiosos do colégio das freiras, como A Canção de Bernadette; os espetáculos de Dona Jeanete de Moraes Souza e as montagens anuais do grupo amador da minha cidade, além dos espetáculos levados pelas companhias que chegavam do sul. Entre estas, jamais esqueci a de Mário Salaberry e Lucy Lamour, dos quais me fiz amigo e menino de “vai ali pegar um maço de cigarros”. Soube, anos depois, que Mário Salaberry morrera durante aquela excursão num acidente de carro, em Alagoas. E nunca mais ouvi falar em Lucy Lamour. Medéia assinalou a minha entrada no teatro recifense ao mesmo tempo em que me iniciou no universo dos espetáculos de belas palavras. Embora já houvesse lido Romeu e Julieta, Rei Lear, As Alegres Comadres de Windsor e soubesse quase de cor A Ceia dos Cardeais, de Júlio Dantas, e As Máscaras, de Menotti del Picchia, os espetáculos que eu tinha visto até então eram todos de textos simples, nos quais a trama e o desfecho importavam mais que a palavra, a frase. Medéia foi um marco. Os versos fluíam como se fossem música e eu jamais tinha lido Eurípedes. Três ou quatro degraus largos marcavam a grande estrutura do cenário, dividido em dois planos. Margarida Cardoso (Medéia) caía lá no alto e rolava degraus abaixo enquanto a platéia se levantava aplaudindo. Aquela noite repercutiu em mim marcada pelo ferro da primeira vez : primeira vez de Santa Isabel e de um espetáculo com texto clássico; primeira grande atriz que via representando e primeiro passo teatro adentro. Não sabia, porém, que aquele passo levaria a muitos outros que não me deixaram sair de Recife senão doze anos depois, quando me vi forçado a trocar as baronesas do Capibaribe pelos meandros da zona sul do Rio de Janeiro