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Meu começo no Teatro

            Cheguei ao Recife em fevereiro de 1958. Passei pelo menos dois meses até que, por fim, fui ao teatro, levado por Roberto Ramalho, que também já havia me levado a um puteiro, na Rua Duque de Caxias. A beleza noturna do casario de Santo Antônio, onde ficava o cabaré, fascinou-me tanto quanto o Santa Isabel, o primeiro teatro propriamente dito que eu conhecia, pois na Parnaíba não havia teatro (nem hoje ainda) e os espetáculos eram apresentados nos auditórios dos colégios ou no cine-teatro Eden.Era uma noite de abril, talvez maio, quando Roberto Ramalho e eu deixamos a Chácara das Rosas, a pensão da rua Riachuelo, onde dividíamos um quarto. Roberto, alagoano, havia terminado o curso de engenharia há  pouco tempo e era professor universitário de matemática. Varava noites resolvendo problemas e, antes de adormecer, passava algum tempo na cama lendo literatura. Sua pequena biblioteca era variada e tanto tinha a obra completa de Graciliano Ramos como Um Americano Tranqüilo, de Graham Greene, e o Canto General, de Pablo Neruda, em espanhol.Louro, olhos miúdos, cortês, Roberto era um cavalheiro, daqueles que se imagina em romances de Lawrence ou Flaubert. O motivo daquela saída à noite, natural para Roberto, era, para mim, carregada de expectativa e ansiedade: íamos ao Teatro Santa Isabel ver Medéia, montagem do Teatro Universitário de Pernambuco. Pela primeira vez eu ia assistir a um espetáculo em Recife; pela primeira vez ia entrar no Santa Isabel, um lugar sagrado, onde Eugênia Câmara havia se apresentado, tendo Castro Alves na platéia. Todo o teatro a que eu havia assistido até então eram os espetáculos de circo (O Conde de Monte Cristo, O Louco da Aldeia); os dramas religiosos do colégio das freiras, como A Canção de Bernadette; os espetáculos de Dona Jeanete de Moraes Souza e as montagens anuais do grupo amador da minha cidade, além dos espetáculos levados pelas companhias que chegavam do sul. Entre estas, jamais esqueci a de Mário Salaberry e Lucy Lamour, dos quais me fiz amigo e menino de “vai ali pegar um maço de cigarros”. Soube, anos depois, que Mário Salaberry morrera durante aquela excursão num acidente de carro, em Alagoas. E nunca mais ouvi falar em Lucy Lamour.

                Medéia assinalou a minha entrada no teatro recifense ao mesmo tempo em que me iniciou no universo dos espetáculos de belas palavras. Embora já houvesse lido Romeu e Julieta, Rei Lear, As Alegres Comadres de Windsor e soubesse quase de cor A Ceia dos Cardeais, de Júlio Dantas, e As Máscaras, de Menotti del Picchia, os espetáculos que eu tinha visto até então eram todos de textos simples, nos quais a trama e o desfecho importavam mais que a palavra, a frase. Medéia foi um marco. Os versos fluíam como se fossem música e eu jamais tinha lido Eurípedes. Três ou quatro degraus largos marcavam a grande estrutura do cenário, dividido em dois planos. Margarida Cardoso (Medéia) caía lá no alto e rolava degraus abaixo enquanto a platéia se levantava aplaudindo. Aquela noite repercutiu em mim marcada pelo ferro da primeira vez : primeira vez de Santa Isabel e de um espetáculo com texto clássico; primeira grande atriz que via representando e primeiro passo teatro adentro. Não sabia, porém, que aquele passo levaria a muitos outros que não me deixaram sair de Recife senão doze anos depois, quando me vi forçado a trocar as baronesas do Capibaribe pelos meandros da zona sul do Rio de Janeiro

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Benjamim Santos
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