Oeiras e o espírito oeirense
Do ponto de vista histórico, nada é mais importante para o piauiense de hoje do que conhecer Oeiras. E, para os privilegiados, mais valioso que conhecer é viver Oeiras. Do extremo sul, das barrancas de Corrente, às beiradas de praia da Atalaia e do Coqueiro, conhecer Oeiras é tão prazeiroso quanto conhecer Ouro Preto, Bruges, Veneza ou Istambul. Na verdade, se Ouro Preto é a gloriosa relíquia do setecento mineiro, o centro histórico de Oeiras é a Vila Rica sertaneja; representação máxima do Ciclo do Gado, como Ouro Preto é a representação máxima do Ciclo do Ouro. é uma monumental Ouro Preto sem o ouro, a prata, o lioz, o entalhe flamejante e, sobretudo, sem a grandiosidade de Athayde e Antônio da Silva Lisboa.
Em muitos detalhes, a Parnaíba ostenta maiores valores: a Capela Dourada e azulejada da Catedral; as lápides de mármore e lioz dos antigos mortos; o Bom Jesus dos Passos; o sobrado da Casa Grande (único de três andares completos dos tempos coloniais piauienses); o retábulo de Nossa Senhora da Conceição, na esquina da Casa Grande e o conjunto setecento-oitocento do Porto das Barcas. No entanto, Oeiras revela um todo carismático que envolve o visitante sensível, desde o primeiro instante, e se o visitante deixa-se levar por esse augusto poder passa magicamente a viver Oeiras.Viver Oeiras é um estado de espírito que pressupõe um coração leve e disponível; um coração que esteja totalmente liberto dos slogans de ocasião: capital da fé, capital da folia, capital da cultura sertaneja... Nada disso tem valor diante da densidade da noite oeirense; da torre única da bela igreja jesuítica; do casario de aparência pobre; da força da pedra na Ponte do Mocha; dos meandros da cidade vista do alto dos montes. Viver Oeiras é deixar-se penetrar pelo mistério da oeirensidade. E quem se deixar conduzir por esse mistério ficará marcado para sempre.
(Publicado antes no jornal impresso O Bembém número 2)









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