SANTO ANTÔNIO - O SANTO CASAMENTEIRO
Os festejos populares brasileiros são promovidos em sua honra e, da península Ibérica, chegaram até nós as mais interessantes abusões em torno de Santo Antônio - vestígios, segundo Afonso Arinos, de CULTOS ORGÍACOS DA ÁFRICA E ÁSIA DO PAGANISMO.
O milagroso Santo é representado com o Menino Jesus nos braços, porque, segundo a tradição, na sua cela de monge, teve FREQÜENTES APARIÇÕES DO DEUS INFANTE, NUM BERÇO DE NUVENS ALVAS, CERCADO DE ANJINHOS.
O seu prestígio, a sua popularidade, no Brasil, é fato notável, como expressão de arraigada crença de nossa gente.
Como protetor dos soldados em batalhas cruentas, destacando-se a travada no Rio de Janeiro, contra os franceses, conquistou Santo Antônio altas patentes militares, recebendo os respectivos soldos até o princípio da República.
Como patrono dos RAPAZES é o responsável por muitos casamentos, ARRANCADOS a custa de promessas e sentidas orações. É, também, a quem se recorre para se encontrar objetos, donde o costume de se RESPONSAR a Santo Antonio para descobrir animais e coisas desaparecidas.
Conta-se que o primeiro milagre do Santo, interferindo em casamento, foi assim:
Certa donzela lusitana, de boa estirpe e formosas prendas; de recursos incontáveis mas de avançada idade, depois de muito se esforçar para conseguir um NOIVO, apelou a Santo Antônio.
Debalde foram as orações, por mais contritas; e as promessas, por mais bem intencionadas.
Irritada com o DESCASO do Santo, a irrequieta moça atirou a sua pesada imagem, do alto do sobrado, ao meio da rua. Nesse ínterim transitava, despreocupado e alegre, esbelto mancebo, em cuja cabeça a imagem se despedaçara.
O rapaz caiu por terra, sem fala, desacordado. A culpada por tudo aquilo, tangida de temor, acorreu a socorrê-lo e, com a ajuda de serviçais, acomodou-o em seus ricos aposentos.
Ao tornar a si, o simpático mancebo, cercado por mimos e cuidados, de riquezas e esplendores, dominou-se por violenta paixão, vindo a casar-se com aquela que, somente depois, veio a saber responsável pelo brusco acidente.
Foi assim, o primeiro milagre do Santo, em questão de casamento! E, por isso, é que se tornou costume das moças arrancar-lhe dos braços o Menino Jesus, deitarem a imagem de cabeça para baixo, no fundo de um poço, até que venha o MILAGRE.
É no transcurso do DIA DOS NAMORADOS que trazemos aos prezados leitores algo de folclórico, valendo-nos das lições de Pereira da Costa, citado por Afonso Arinos.
Passemos a registrar, agora, o famoso ROSÁRIO DE SANTO ANTÔNIO:
''Padre, Santo Antônio dos Cativos, vós que sois amarrador certo, amarrai, por vosso amor, quem de mim fugir; empenhai o vosso hábito e o vosso santo cordão, como algemas fortes e duros grilhões, para que façam impedir os passos de FULANO que de mim quer fugir; e fazei ó meu bem aventurado Santo Antônio, que ele case comigo sem demora''.
Reza-se, depois, uma ave-maria oferecida ao Santo.
A LADAINHA DAS MOÇAS também é bastante interessante:
''Milagroso São Raimundo
Casador de todo o mundo
Dizei a Santo Antero
Que casar eu quero,
Na Igreja de São Benedito
Com um moço bem bonito.
No altar de Santa Rosa,
Quero dar a mão de esposa
Àquele que tanto amo;
Pedindo a São Germano
E também a Santo Henrique
Que eu bem casada fique;
Permita Santo Odorico
Que o moço seja rico,
E também, Santo Agostinho,
Que me ame com carinho;
Assim como São Roberto
Que o moço seja esperto.
Também rogo a São Vicente
Que isto seja brevemente;
Rogo a Santa Inocência
Não me falte a paciência,
Assim como São Caetano
Que isto seja neste ano.
Já roguei a Santa Inêz,
Que não passe deste mês,
E a Santa Mariana,
Que seja nesta semana;
E à Virgem Nossa Senhora,
Seja mesmo nesta hora!
Consta do manuscrito desta Ladainha a seguinte nota, segundo os citados escritores:
Esta oração é oferecida a São Raimundo duas vezes por dia, uma ao levantar-se, pela manhã, outra ao deitar-se, à noite; rezando-se durante um mês, a pessoa alcançará o que deseja, isto é, casar-se. À hora do meio dia a pessoa deve rezar um Padre-Nosso e uma Ave-Maria. Eu garanto. Assinado: Maria Trindade Ferreira.''
Há, também, uma variante desta oração que diz assim:
São Bartolomeu - casar-me quero eu;
São Ludovico - com um moço rico;
São Nicolau - que ele não seja mau;
São Benedito - que seja bonito;
São Vicente - que não seja impertinente
São Sebastião - que me leve à função;
Santa Felicidade - que me faça a vontade;
São Benjamin - que tenha paixão por mim
Santo André - que não tome rapé;
São Silvino - que tenha muito tino;
São Aniceto - que ande bem quieto;
São Miguel - que dure a lua de mel:
São Bento - que não seja ciumento;
Santa Margarida - que me traga bem vestida;
Santíssima Trindade - que me dê felicidade.
Por terminar esta conversa fiada, uma lição da sabedoria popular um tanto irreverente:
MATRIMÔNIO - PRAÇA SITIADA: os de fora querem entrar; os de dentro querem sair.
Vejamos mais uma gozação sobre o casamento:
O casado é meio home
O solteiro é home inteiro
O viúvo é o rei dos home
Dito por Deus verdadeiro !
Quem se casa duas vez
É mesmo um burro caseiro.
Quando o home vai casá
Neste dia , todo o dia,
Deveriam por-se a dobrar
Os sinos da freguesia.
Todo home quando embarca
Deve rezar uma vez,
Quando vai à guerra duas
E quando se casa três.
É isto mesmo: quem casa não recebe apenas um sacramento, mas dois : - matrimônio e penitência.









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